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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

L'enfant Matrix

Num mundo simulado as máquinas manipulam , para sobreviverem, os corpos adormecidos do ser humano. Em Enfant, apresentado na Culturgest, Boris Charmatz coloca em confronto adultos e crianças. A procura de um movimento espontâneo, quase tosco, poder-se-ia mesmo dizer, infantil, faz-se de forma cruel. Os adultos/bailarinos manipulam o corpo das crianças como se de marionetas se tratassem. Puros objectos, inertes, de olhos fechados, que servem os propósitos e as vontades dos manipuladores. Crianças reféns dos adultos, sem opinião, frágeis, arrastados no chão, transportados de cabeça para baixo, agarrados apenas por uma perna. É um espectáculo incómodo. Vários fantasmas são invocados: a submissão, os abusos físicos, psíquicos e sexuais. Irónica, mas não inocente, a utilização da música Billie Jean de Michael Jackson. Discretos, mas eficazes, os figurinos pretos, simples, realçam a forma e beleza dos corpos, emoldurando a pele que aqui e ali se vai deixando ver. Aos poucos perguntava-me que direito tem este coreógrafo de utilizar o corpo das crianças para o seu trabalho? Ainda que esteticamente a leveza e doçura do corpo da criança em contraste com a rudez e força do corpo adulto seja... admirável. A criança é aqui utilizada como um meio para alcançar a vontade/visão do criador. Não existirão limites éticos na arte? Poderá a arte sobrepor-se à violência sobre aqueles corpos? O espectador será (deverá ser) um voyeur cúmplice e inerte?
No final, os bailarinos/adultos extenuados deixam-se vencer pelos corpos cheios de energia das crianças. Pouco a pouco, estas passam de manipulados a manipuladores, quase que como castigo. Agora vais sofrer nas minhas mãos o que eu sofri nas tuas. Senti quase como se fosse um pedido de desculpas (frouxo) do coreógrafo.
Não é uma peça unânime. Houve quem saísse, quem aplaudisse de pé, quem não aplaudisse, quem a louvasse desde logo, quem a odiasse na mesma medida. Para o bem e para o mal não será facilmente esquecida. Esta fronteira entre a instrumentalização das crianças e a denúncia dessa mesma instrumentalização não é fácil. Nem clara. E se calhar é aí que reside a relevância desta peça.

De 0 a 10 e surpreendendo a mim próprio, será um 7.
Publicado na Rua de Baixo.

Fotografia Boris Brussey

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O inexplicável

É Meg Stuart que diz que a peça que agora apresenta no Teatro Maria Matos, Violet, é uma peça livre e inexplicável, aquela que considera a sua primeira peça abstracta.

Durante cerca de hora e meia, 5 bailarinos procuram energias, forças para construírem (segundo a folha de sala) esculturas cinéticas.

Passados 15 minutos do espectáculo, pergunto-me se esta é uma nova forma de pensar a dança? Se Meg Stuart quer enveredar por outro caminho, experimentar ou se pura e simplesmente estava pouco inspirada e obrigações contratuais a levaram a ter de estrear um espectáculo? À medida que os minutos passam (penosamente) inclino-me cada vez mais para a segunda opção… mas ainda assim procuro entender o transe que está a acontecer naquele palco. O som é ensurdecedor e os corpos em palco não procuram representar absolutamente nada, apenas são isso mesmo, um corpo, o foco da acção. E ali estão… a esbracejar, a mover-se, a caírem. Exaustos. Suados. Olho para a folha de sala uma e outra vez, a tentar encontrar uma pista… nada… ainda esboço um sorriso quando vejo na ficha artística que há uma cenógrafa (é uma parede preta gigante, que estar ali ou não estar…), uma figurinista (aquilo é roupa de trazer por casa) e alguém responsável pela dramaturgia… pelo quê???

E o espectáculo acaba. O público aplaudiu pouco entusiasta (há um ou outro que ainda grita e assobia)… Vou para o metro a pensar nos 18 euros que gastei no bilhete e que tão melhor teriam sido aplicados numa pizza no Lucca (afinal de contas ali tão perto).

De 0 a 10 é um penoso... 1 (em consideração por trabalhos anteriores da coreógrafa).
Publicado na Rua de Baixo.

Fotografia Chris Van der Burght